Por Anna Beatriz Maciel
A partir do tema da Campanha da Fraternidade deste ano, o Diálogos de Justiça e Paz abriu a programação de 2026 no dia 9 de fevereiro com o debate “A luta por moradia e a Igreja: como se conectam?”. O encontro ocorreu no Centro Cultural de Brasília (CCB), com transmissão on-line pelo canal do Observatório de Justiça Socioambiental (OLMA).
O Diálogos de Justiça e Paz é uma iniciativa realizada pelo OLMA em parceria com a Comissão Brasileira de Justiça e Paz, e conta com o apoio do Centro Cultural de Brasília (CCB) e do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR).
Participaram do debate a jornalista e especialista em economia solidária e tecnologia social Cristiane Pereira e o diretor de Cidades do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), André Tavares. A mediação ficou a cargo de Gabriela Lenz de Lacerda, juíza do trabalho e integrante da Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP).
A atividade propôs uma reflexão sobre o direito à moradia a partir da relação entre políticas públicas, a atuação dos movimentos populares e o papel histórico da Igreja na defesa da dignidade humana. Na abertura, Gabriela Lenz ressaltou a importância do diálogo entre pessoas de diferentes áreas e trajetórias, destacando que a diversidade de experiências fortalece a construção coletiva.
Ao longo do debate, a jornalista e especialista em economia solidária e tecnologia social Cristiane Pereira trouxe reflexões que conectaram fé, política pública e direito à moradia. Criada no ambiente da Igreja, ela iniciou a fala a partir da parábola bíblica narrada em Lucas 14:15-24, que descreve um banquete inicialmente recusado pelos convidados e, depois, aberto aos pobres, pessoas com deficiência e mar
ginalizadas. Para Cristiane, a mensagem dialoga diretamente com a luta por moradia e com a necessidade de reconhecer quem historica
mente foi excluído do acesso a direitos básicos. “Enquanto o Senhor nos diz ‘ainda há lugar’, os homens na terra dizem ‘não há lugar para ninguém”, disse.
A partir dessa leitura, Cristiane destacou que os movimentos populares atuam, sobretudo, junto às parcelas mais vulnerabilizadas da sociedade, como catadores, pessoas em situação de rua e famílias que vivem em ocupações irregulares. Segundo ela, é nesse trabalho cotidiano, junto a quem teve direitos negados, que a mensagem cristã encontra sentido prático e se conecta à defesa do direito à moradia.
Na sequência, André T
avares aprofundou o debate ao abordar os entraves estruturais da política habitacional no Distrito Federal. Ele apontou a baixa efetividade dos programas existentes e as limitações da atuação do Estado como fatores que dificultam o acesso à moradia, especialmente para populações em situação de maior vulnerabilidade social.
Entre os pontos destacados, esteve a lentidão da fila dos programas habitacionais no DF, que atende apenas uma parcela reduzida das pessoas inscritas. Segundo André, o déficit habitacional no território chega a cerca de 100 mil unidades, cenário que leva muitas famíli
as a recorrerem a ocupações irregulares como alternativa de moradia.
Também foi ressaltado o impacto da grilagem de terras, prática que aprofunda a vulnerabilidade ao criar falsas expectativas de regularização e impor custos elevados às famílias. “As pessoas vão para a informalidade até para conseguir recurso para construir as próprias casas”, afirmou.
Nesse contexto, André reforçou a necessidade de maior articulação entre poder público, movimentos populares e organizações da sociedade civil — campo no qual a Igreja se insere historicamente. Ele destacou a importância de fortalecer iniciativas já previstas no marco legal, mas ainda não efetivadas no Distrito Federal, especialmente aquelas que possibilitam a atuação direta de organizações sociais na gestão de obras e intervenções nos territórios.
O Diálogos de Justiça e Paz retorna no dia 2 de março com o tema “Teologias feministas e o enfrentamento das violências contra as mulheres”.