
Uma coisa sempre me atravessa quando escrevo sobre gente que dedica a vida inteira à justiça. Tem uma diferença enorme entre viver e existir. Viver é ocupar espaço. Existir é ocupar sentido. E existem pessoas que existem tão profundamente que, sem perceber, balançam estruturas inteiras de injustiça. Pessoas que não viram o rosto diante do absurdo. Pessoas que, mesmo sem querer ser heroínas, acabam se tornando, justamente porque não conseguem aceitar o inaceitável.
Dorothy Stang era uma dessas pessoas.
Daquelas que, quando vêem uma injustiça, não dormem.
E quando dormem, sonham com ela.
E acordam decididas a fazer alguma coisa.
E talvez seja por isso que a morte dela doeu tanto no Brasil.
Porque ela lembrava ao mundo uma coisa simples e perigosa: terra tem dono, sim. Mas o dono é o povo que trabalha nela. E isso, para muita gente poderosa, é imperdoável.
Dorothy Mae Stang nasceu em Ohio, nos Estados Unidos, em 1931. Filha de gente simples. Família católica. Cresceu com aquele tipo de fé que não cabe em cerimônia religiosa, mas em atitude. Desde jovem, ela acreditava que sua missão era cuidar dos vulneráveis. Entrou para a Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur e, nos anos 60, veio ao Brasil. E o Brasil transformou Dorothy para sempre.
O que mais chocou Dorothy não foi a pobreza.
Foi o abandono.
A ausência do Estado.
A sensação de que as pessoas mais frágeis estavam totalmente sozinhas.
E ela entendeu algo que muitas instituições religiosas ignoravam: evangelho sem justiça social é só enfeite.
Nos anos 70, Dorothy se mudou para a região de Anapu, no Pará. E ali ela encontrou o lado mais cruel do Brasil. Não era floresta. Era guerra. Terra pública sendo roubada. Famílias expulsas a bala. Pistolagem andando solta. Crianças crescendo vendo violência como se fosse amanhecer.
E para entender a morte dela, é preciso entender primeiro o monstro que dominava aquela região: a grilagem de terra.
Grilagem é o roubo de terra pública.
É falsificar documento, adulterar registro, invadir lote, expulsar moradores, derrubar floresta e vender como se fosse propriedade legítima. O nome vem de “grilo” porque os fraudadores colocavam papéis falsos dentro de caixas com grilos, para envelhecer o documento e parecer verdadeiro. Mas isso é só o começo. Grilagem é uma engrenagem inteira de crime: invasão, violência, suborno, expulsão, pistolagem, políticos coniventes, cartórios corruptos.
A lógica é simples e brutal:
rouba-se a terra, vende-se a madeira, queima-se a mata, planta-se capim, vende-se como fazenda.
Lucro rápido.
Sem lei.
Sem moral.
Sem limite.
E Dorothy enfrentou esse sistema sozinha.
Ela criou cooperativas, alfabetizou adultos, orientou agricultores, ajudou famílias a se legalizarem na terra, ensinou direitos básicos que o Estado nunca ensinou. Ela defendia o Projeto de Desenvolvimento Sustentável de Anapu, onde famílias podiam viver legalmente, cultivar a terra, proteger a floresta e escapar da miséria.
E isso era um crime imperdoável para quem vivia roubando terra pública.
Quanto mais Dorothy ajudava as famílias, mais perigosa ela se tornava para os grileiros.
Quanto mais organizava comunidades, mais passava a ser vista como inimiga de gente rica.
Quanto mais gente ela protegia, mais seu nome circulava nas listas de marcados para morrer.
As ameaças começaram nos anos 90.
Depois vieram recados diretos.
Depois homens armados rondando a casa dela.
Depois cartas anônimas.
Depois seu nome escrito como sentença.
Mas Dorothy não recuou um passo.
Porque ela acreditava de verdade que a fé não é esconderijo.
É coragem.
Na manhã de 12 de fevereiro de 2005, Dorothy caminhava por uma estrada de terra para uma reunião com agricultores. Sol quente. Poeira no ar. Mata fechada. Dois pistoleiros se aproximaram. Ela reconheceu na hora. E mesmo assim não correu. Não implorou. Não se encolheu.
Ela abriu a Bíblia.
Leu o Sermão da Montanha e disse: “Deus os abençoe.”
Seis tiros.
E a mulher que sustentava centenas de famílias caiu sozinha, na estrada que ela percorria todos os dias para defender quem ninguém defendia.
Mas ao contrário de tantas mortes no campo, em que os culpados somem como fumaça, desta vez os assassinos tinham nome, rosto e mandantes.
O homem que apertou o gatilho chamava-se Rayfran das Neves Sales.
O cúmplice era Clodoaldo Carlos Batista.
Ambos foram julgados e condenados.
Rayfran pegou 28 anos.
Clodoaldo pegou 17.
Mas Dorothy não morreu pelas mãos deles.
Eles foram só instrumento.
A ordem veio de cima.
O mandante principal foi identificado:
Regivaldo Pereira Galvão, conhecido como “Taradão”, fazendeiro influente e envolvido em grilagem pesada.
Ele foi condenado a cerca de 30 anos de prisão.
Mas, como sempre acontece no Brasil profundo, a justiça veio aos pedaços.
Regivaldo conseguiu recorrer.
Conseguiu liberdade provisória.
Viveu solto por anos enquanto famílias choravam Dorothy em silêncio.
Essa é a parte mais difícil de engolir.
No Brasil, quem aperta o gatilho às vezes até paga.
Mas quem manda apertar raramente perde o sono.
O mundo inteiro reagiu à morte de Dorothy.
Jornais. Organizações internacionais.
Congressistas americanos.
A ONU.
A Anistia Internacional.
Todo mundo ouviu falar de Anapu, um nome que quase ninguém sabia pronunciar até então.
Mas nenhuma manchete trouxe Dorothy de volta.
Nenhuma justiça recompôs o tamanho da perda.
Nenhuma condenação devolveu a ela o que lhe tiraram.
E o que mais me dói, enquanto escrevo isso, é perceber como ela morreu pelo motivo mais pequeno, mais sujo, mais miserável que existe: dinheiro.
Ganância pura.
Terra roubada.
Poder fácil.
Dorothy não morreu defendendo árvores.
Ela morreu defendendo gente.
Gente pobre.
E defender gente pobre no Brasil é um dos atos mais perigosos que existem.
Dorothy foi enterrada em Anapu, ao lado das pessoas que ela escolheu proteger.
E, de certa forma, ela nunca saiu de lá.
A floresta sabe quem defendeu ela.
E a memória dela continua viva, mesmo quando tanta coisa tenta apagar.
A história de Dorothy não é para ser lida com distancia.
É para ser sentida como alerta.
Porque enquanto existir grilagem, pistolagem, corrupção e terra roubada, outras Dorothys serão mortas na beira de estradas sem nome, longe das câmeras, longe das estatísticas.
Dorothy não tombou.
Dorothy foi plantada.
E cada pessoa que lê essa história hoje é prova de que ela não morreu em vão.
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